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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

SOGRA BRABA - Parte I

Marta estava inquieta. Não estava entendendo esta pressa. Por que tudo assim tão rapidamente? Ser pedida em casamento num dia e já casar no dia seguinte?
- Julio, vamos dar mais um tempo. A gente se prepara melhor. Precisamos ainda de muitas coisas. Preparativos para um casamento não é brincadeira, não.
- Não, Marta, sou homem de palavra. Já falei e não vou voltar atrás. Vamos casar amanhã!
- E onde a gente vai morar, Julio?
- Aqui mesmo na casa de sua mãe. A gente passa um tempo, enquanto arruma um local.
- Oh, homem de Deus!. Toda noiva precisa se preparar. Nem moça bulida casa com essa pressa. Ninguém merece !
- Vai dar tudo certo, meu amor. Você vai ver...
Julio não sabia um terço do rosário de dona Marocas. Mulher valente e mandona. Era a mulher e o homem da casa. Bordava à máquina e mandava em tudo. Seu Juvêncio, coitado, era manobrado como um boi de venta furada. Manicaca. Dona Marocas era quem dava as ordens. Ou mudava, segundo seu duro querer.
Quem iria impedir um plano tão objetivo como aquele? Seria melhor casar logo mesmo. E este dia tão sonhado chegou logo, questão de uma noite. Casaram na capela. Pouquíssimas pessoas. Nada de cerimônia, ou cortejo nupcial. Só as recomendações do padre e a bênção de Deus. Mas os noivos, assim mesmo, foram os astros mais belos e brilhantes. Julio com um paletó azul marinho e Marta de véu e um vestido branco. Era a noiva desejada por qualquer poeta.
Depois, alguns comes e bebes na casa de Marta. Geraldo já estacionara sua rural para levá-los para a praia. Lua de mel. Tudo perfeito, não obstante, acertado tão rapidamente.
Tantos sonhos de amor realizados. Tantas quimeras materializadas na sublimidade do amor, para vir desaguar depois na casa de dona Marocas. Julio nem sabia que tudo já estava previamente ordenado. Coitado, não pensara que estava saindo do céu e entrando no inferno. O quarto, o local de cada móvel, a cama com a cabeceira para o lado da janela, até o enfeite sobre o criado mudo, ninguém podia mover nada. Dona Marocas não permitia.
Logo na manhã seguinte, pouco antes das cinco horas, o clarão da aurora já prenunciava um dia limpo, de sol. Dona Marocas dava as primeiras ordens.
- Acorda, Julio. Tá na hora de levantar, gritou lá do quarto dela, com sua voz carrancuda por sobre a meia parede.
- Vá ajudar aos meninos a carregar água. Quero os potes todos cheios hoje.
- Deixe que eu vou, Marocas.. Não acorde Julio, não. Diz Juvêncio, saindo com a lata.....
- Ei, volte, aqui quem manda sou eu!. Juvêncio parou como um cavalo puxado pelo cabresto. E voltou em cima dos cascos, com a lata vazia.
Julio cochichou baixinho:
- E ai, Marta?
- Vá homem! Disse ela.
- É longe?
- É lá na outra rua.

Continua.......

SOGRA BRABA - Parte II

Julio foi obrigado a sair de seu aposento nupcial para ir buscar água no charafiz. Marocas poderia ter incumbido Gilberto, irmão de Marta, para fazer esta tarefa. Afinal, ele não tinha o costume de carregar latas dágua. Entretanto, aquele menino só vivia agarrado com suas revistas, já amareladas pelo manuseio. Sentava-se no sofá da sala e ficava, o dia todo, calado, com os olhos fixos naquelas histórias de quadrinhos. Julio balbuciou, baixinho, somente para os seus botões:
- Diacho deste menino preguiçoso!. Só quer vida boa! Certamente quer ser doutor, ou até bancário. Lendo tudo que vê na sua frente, por certo quer ser escritor.
A disciplina dos três filhos era feita com mão de ferro. Dona Marocas mantinha, pendurada no armador da sala, sua palmatória. E a usava com rigor, em qualquer travessura que eles fizessem.
Tudo dela era guardado a sete chaves. Tudo trancafiado. Seus objetos de uso pessoal eram todos marcados. Ela escrevia um "M" bem desenhado. Prato, colher e copo. Até os ovos das galinhas que ela trazia lá do chiqueiro, os pintava com aquele grande "M" vermelho. E ai de quem ousasse pegar num deles.
À noite, deitado, ainda com o corpo dolorido e as mãos ardendo, pelo esforço daquela manhã, Julio começou a entender que sua estadia ali seria muito tormentosa. A não ser que rasgasse o galo e jogasse as penas sobre Marocas e mostrasse a ela com quantos paus se faz uma balsa.
Agora era deixar isso prá lá e procurar desfrutar dos deleites do amor com sua mulher, nova e bonita e cheirosa. Afinal eles ainda estavam em lua de mel.
No dia seguinte, após o café, antes de Julio sair para o trabalho, Marocas, entrou em seu quarto balançando o espanador, e colocando cada coisa em seu lugar.
- Cadê o enfeitinho que coloquei aqui sobre o criado mudo? Quem teve o atrevimento de tirar daqui? E apontava com o cabo do espanador.
Ah, não, não agüento mais, vai ser agora, pensou baixinho Julio. Ontem me acordou para carregar água e hoje, vem me encher o saco?
- Eu!!!. Julio levantou-se como um soldado em posição de continência.
- Pronto, fui eu...e agora?..o que é que vai dar?. E puxe daqui! A senhora manda da porta prá lá. Aqui no meu quarto, mando eu! Bradou para todo o quarteirão ouvir.
Marocas ficou muda, parada, os olhos fixos e caiu tesa no chão. Depois começou a tremer como vara verde.
- Você vai me matar, desgraçado!
Muitos espetáculos como este se passaram naqueles dias. Julio não podia mais permitir que aquela mulher, mandona e implacável, dominasse tudo.
Nove meses depois, Marta se preparava para colher os frutos do seu amor.
Á mesa, no café da manha, Julio exprime a vontade de levar Marta para fazer o parto na Maternidade Santa Rita.
- De jeito nenhum, ela vai é para a Casa de Saude, assevera Marocas.
Ninguém imagina o turbilhão de pensamentos que passa pela cabeça de Julio. Ver sua esposa com aquele barrigão e por cima com papeira. Mas o pior era enfrentar uma sogra tão braba. Marta teria condições de ter o menino naquelas condições? Não, não teria. O médico já marcara o dia da cesariana. Ademais, Marta teve que esconder a papeira, com um lenço. Doença miserável e contagiosa.
Não foi menino, como ele esperava. Agora ele era pai de uma linda menina. Ao voltar para casa, a situação piorava cada vez mais. Além de já mandar em tudo, Marocas agora mandava também em sua neta recém chegada. Se fosse só isso, estava bom.
- Ei, você vai dormir na sala. Quando terminar o resguardo, você volta.
Parece que suas tentativas de quebrantar a sogra, não tinham surtido muito efeito. Marocas, a cada dia, ficava mais braba e indomável. Implicava com tudo. Arrumação da casa, do quarto. Seu Juvêncio, coitado, já deixara ela montar de vez. Ela teimava até com as galinhas do chiqueiro, lá no muro.
Mas Julio não se achava mole não. Pelo contrário, ele era também mais brabo do que um siri dentro de uma lata.
Como conviver assim com sua sogra?
Destarte resolveu procurar casa para alugar e sair. Com seu ordenado da cervejaria já dava para pagar o aluguel. Mesmo que fosse residir lá no rabo da gata, ou em baixo da ponte. Morar com uma sogra braba como aquela, não dava mais.

Arnaud Amorim

sábado, 19 de janeiro de 2008

PRIMÓRDIOS DA TELEVISÃO EM MOSSORÓ.

Sempre fui muito ligado a TV. Assistíamos eu e compadre José Pequeno, aos filmes da TV Verdes mares que passavam na tribo dos Monxorós em 1969. Ele também era amarrado, e não perdíamos nenhum deles. Ficávamos, às vezes, até altas horas.

Morávamos, na época, na antiga Fundhap, depois Cohab e posteriormente Walfredo Gurgel. Parece que ainda ouço aqui nos meus ouvidos, que a terra há de comer, a bonita voz do cara que dublava o artista principal.

Depois veio a copa de 1970. Com ou sem modéstia, a minha era, segundo sabia, a única TV naquelas paragens. Acho que fui um cara legal, porque improvisei uma sala de projeção, ops! de TV lá em casa, para acompanharmos a copa. Era tudo preto e branco, uma beleza!. Lembro do dia do memorável jogo, Brasil e Inglaterra. Era um domingo. O jogo seria à tarde. Soube que, logo pela manhã, às dez horas, a TV Verdes Mares, exibiria um filme sobre a vida de Pelé. A nossa repetidora da Serra Mossoró, Nonato que o diga, só entrava no ar, ao meio dia. Já pensou? Fiquei doido!. Tanto, que resolvi ir à serra, falar com o rapaz responsável lá, para tentar alguma coisa, tipo colocar no ar a repetidora, ou, em ultimo caso, assistiria lá mesmo o tal filme.
Adivinhem quem eu convidei, para ir comigo? Compadre José Pequeno. Acertou. Fomos de lambreta LD. Beleza total. Caímos apenas uma vez na viagem. Sobrei numa curva e tombamos sobre uma moita de mato.
Entretanto, fiquei mais animado que pinto em beira de cerca, quando galgamos a última ladeira da serra. Mais ainda, quando conseguimos “fazer a cabeça” do rapaz da repetidora e o memorável feito de, em plena copa do mundo, mandarmos ao ar o tão propalado filme, para o deleite de não sei quantos telespectadores em toda Mossoró.
Nunca falei isso para ninguém. nem para o técnico Nonato. Imagine o furo. Mas sempre há tempo para confessar e pedir perdão, mesmo 37 anos depois.
Pedir perdão uma droga! Que nada! Este singelo artigo deve é fazer parte da história da televisão em Mossoró. O amigo Cid do Canto de Página que o diga.
Pegamos a LD de volta, e corremos para casa. Foi bem rapidinho, parece que descendo, todos os santos ajudam. Imaginem nossa alegria ao chegarmos, à nossa pequena rua João Capistrano do Couto e já vermos várias pessoas lá em casa, sentadas, posicionadas para ver o filme. Geraldo, Heronilson, Zenildo, Pereira e tantos outros amigos do peito e do tempo.
Depois do filme, preparativos para o sensacional jogo. Vitória do Brasil. 1 x 0. Gol de Pelé. De cabeça. Foi emoção demais! Um amigo, Pereira, até passou mal.
Imagine a festa que fazíamos a cada jogo, a cada vitória, até a inesquecível final com a Itália, quando o prognóstico do nosso saudoso presidente Garrastazu Médici foi batata, 4 x 1. Brasil Tri-campeão mundial. Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração.

Outro dia, passava ali na loja do Titico Maia, proximidades da subida da ponte Jerônimo Rosado e vi uma cena inescapável. Flávio Cavalcanti, estalava os dedos pedindo: Nossos comerciais, por favor, numa TV colorida enorme! Quase bati o carro. Parei de qualquer jeito e corri p’rá lá. Achei, sinceramente, o máximo!
Mas esta é outra história.